A hantavirose em SC voltou a exigir atenção após a confirmação da segunda morte pela doença em Santa Catarina em 2026. A vítima mais recente era um homem de 28 anos, residente no Litoral Norte, e o caso reforça a importância de prevenir o contato com roedores silvestres e, principalmente, com suas fezes, urina e saliva.
O óbito foi confirmado pela Diretoria de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina (Dive) em 23 de setembro. Segundo informações divulgadas, o homem não apresentava comorbidades e havia tido contato com urina de rato antes do adoecimento.
A morte ocorreu em 15 de setembro. O primeiro óbito registrado no estado em 2026 havia ocorrido em um município do Vale do Itajaí.
A hantavirose é uma zoonose viral aguda que, nas Américas, pode evoluir para a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), condição capaz de provocar insuficiência respiratória e alterações cardiovasculares graves.
O episódio também evidencia um ponto essencial para o controle de pragas: diferentemente de doenças associadas predominantemente às ratazanas urbanas, os principais reservatórios dos hantavírus são determinadas espécies de roedores silvestres. Isso modifica completamente a estratégia de prevenção.
Hantavirose em SC: como ocorre a transmissão?
Os hantavírus permanecem na natureza principalmente por meio da infecção de determinadas espécies de roedores silvestres.
Esses animais podem eliminar o vírus por meio da urina, das fezes e da saliva sem necessariamente apresentar sinais de doença.
Segundo o Ministério da Saúde, a forma mais frequente de infecção humana ocorre pela inalação de aerossóis contaminados.
Isso acontece quando secreções ou excretas de roedores infectados secam e pequenas partículas são suspensas no ar durante atividades como:
- Varrer galpões e depósitos a seco;
- Movimentar caixas, sacarias ou materiais armazenados;
- Limpar paióis, silos e construções rurais;
- Entrar em imóveis fechados há muito tempo;
- Manipular materiais onde houve atividade de roedores;
- Realizar atividades agrícolas em locais contaminados.
A pessoa pode respirar essas partículas sem perceber que esteve exposta ao vírus.
A transmissão também pode acontecer pelo contato das secreções contaminadas com ferimentos ou mucosas e, menos frequentemente, por mordedura.
No Brasil, a transmissão entre pessoas não é considerada a via habitual para os hantavírus circulantes no país.
Rato silvestre não é o mesmo que a ratazana encontrada no esgoto
Uma das informações mais importantes para compreender a hantavirose é diferenciar os roedores envolvidos na transmissão.
Ratazanas (Rattus norvegicus), ratos-de-telhado (Rattus rattus) e camundongos domésticos (Mus musculus) estão associados a diversos problemas sanitários nos ambientes urbanos.
No entanto, os reservatórios naturais dos hantavírus associados aos casos brasileiros são principalmente espécies de roedores silvestres.
Esses animais podem se aproximar das edificações rurais quando encontram alimento, abrigo ou alterações ambientais favoráveis.
Por isso, simplesmente aplicar raticida como se estivesse diante de uma infestação urbana convencional não representa uma estratégia adequada para prevenção da hantavirose.
Para aprofundar essa diferença entre as espécies e entender melhor a biologia dos roedores, consulte também nossa série Tudo Sobre Ratos.
Quem apresenta maior risco de exposição à hantavirose?
A doença pode ocorrer em diferentes contextos, mas a exposição é mais frequente em ambientes rurais e periurbanos onde existe contato entre pessoas e roedores silvestres.
Dados epidemiológicos do Ministério da Saúde indicam maior ocorrência entre homens adultos e em situações relacionadas ao trabalho agrícola.
Entre as atividades potencialmente expostas estão:
- Agricultura e colheita;
- Armazenamento e movimentação de grãos;
- Limpeza de silos e paióis;
- Trabalho em galpões rurais;
- Atividades florestais;
- Pesca e permanência prolongada em áreas silvestres;
- Limpeza de casas, barracões e depósitos fechados por longos períodos.
Turistas, campistas e proprietários de imóveis rurais também precisam ter atenção ao acessar cabanas ou construções desocupadas onde existam sinais de atividade de roedores.
Quais são os sintomas da hantavirose?
O período entre a exposição ao vírus e o aparecimento dos sintomas pode variar. Segundo o Ministério da Saúde, a incubação ocorre geralmente dentro de algumas semanas, podendo apresentar ampla variação.
Na fase inicial, os sintomas podem ser semelhantes aos de outras doenças infecciosas.
- Febre;
- Dor de cabeça;
- Dores musculares e articulares;
- Dor lombar;
- Dor abdominal;
- Náuseas e outros sintomas gastrointestinais.
Posteriormente, nos casos que evoluem para a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus, podem surgir sinais de maior gravidade.
- Dificuldade para respirar;
- Respiração acelerada;
- Tosse seca;
- Aceleração dos batimentos cardíacos;
- Queda da pressão arterial;
- Comprometimento pulmonar progressivo.
Pessoas que apresentem febre ou sintomas respiratórios após uma situação compatível com exposição a roedores devem procurar atendimento médico imediatamente e informar a possível exposição.
A hantavirose pode evoluir rapidamente
Um dos principais motivos de preocupação é a possibilidade de rápida evolução clínica nos casos graves.
A Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus pode provocar comprometimento respiratório intenso e alterações circulatórias, exigindo atendimento hospitalar especializado.
Segundo dados nacionais do Ministério da Saúde, a hantavirose apresenta elevada letalidade no Brasil, embora os resultados variem conforme o período analisado, a região e as características dos casos.
Não é adequado, portanto, estabelecer um prazo fixo para a evolução de todos os pacientes. Cada caso pode apresentar comportamento clínico diferente.
A rapidez na identificação da suspeita epidemiológica e no encaminhamento para atendimento adequado é fundamental.
Nunca varra fezes de roedores a seco
Uma das principais medidas preventivas está relacionada à forma como ambientes potencialmente contaminados são limpos.
Fezes, urina e materiais com sinais de atividade de roedores não devem ser simplesmente varridos ou aspirados a seco.
A movimentação pode produzir poeira e aerossóis contendo partículas contaminadas, exatamente uma das principais vias de exposição ao hantavírus.
Ao encontrar sinais de roedores em um local fechado:
- Evite entrar e iniciar imediatamente a limpeza.
- Abra portas e janelas e permita a ventilação natural antes de permanecer no ambiente.
- Não varra nem aspire resíduos secos.
- Umedeça previamente as superfícies conforme os protocolos sanitários indicados para a situação.
- Utilize equipamentos de proteção compatíveis com o nível de exposição.
- Em casos de grande contaminação ou ocorrência epidemiológica confirmada, solicite orientação dos órgãos de saúde.
Ambientes relacionados a casos confirmados de hantavirose exigem procedimentos específicos de biossegurança e não devem ser tratados como uma limpeza doméstica convencional.
Galpões e casas fechadas devem ser ventilados antes da entrada
Casas rurais, depósitos, paióis, chalés ou galpões que permaneceram fechados por períodos prolongados merecem atenção especial.
Se houver fezes, ninhos, materiais roídos ou outros indícios de presença de roedores, a entrada deve ser realizada com cautela.
O Ministério da Saúde recomenda que instalações que permaneceram fechadas e apresentem sinais de roedores sejam previamente arejadas antes da utilização e da limpeza.
Essa simples medida reduz a concentração de partículas suspensas e deve fazer parte dos procedimentos de segurança em propriedades rurais.
Como impedir que roedores silvestres se aproximem das edificações?
A prevenção deve atuar sobre os fatores que aproximam os roedores das áreas ocupadas pelas pessoas.
Assim como no Manejo Integrado de Pragas, é necessário reduzir acesso, abrigo, alimento e água disponíveis.
Eliminar abrigo
Entulhos, restos de madeira, materiais agrícolas inutilizados e objetos acumulados ao redor de residências e galpões podem oferecer proteção aos animais.
A organização e a limpeza do perímetro diminuem os locais disponíveis para formação de ninhos.
Controlar a vegetação
A vegetação muito próxima às edificações facilita o deslocamento protegido dos roedores.
O manejo adequado das áreas ao redor de casas, depósitos, silos e abrigos de animais reduz oportunidades de aproximação.
Proteger alimentos e rações
Grãos, rações e alimentos devem permanecer armazenados em recipientes ou estruturas resistentes à entrada de roedores.
Alimentos de animais domésticos não devem permanecer disponíveis durante toda a noite.
Vedar os pontos de entrada
Portas, telhados, paredes, passagens de tubulações e outras aberturas devem ser inspecionados.
A exclusão física constitui uma das medidas mais eficientes para impedir que animais que circulam na área externa passem a utilizar as edificações como abrigo.
Problemas relacionados ao acúmulo de resíduos também aumentam a oferta de abrigo e alimento. Veja nosso conteúdo sobre como o acúmulo de lixo favorece a presença de roedores.
Raticida não deve ser utilizado indiscriminadamente contra roedores silvestres
A associação entre roedores e hantavirose pode levar algumas pessoas a concluir que espalhar veneno pela propriedade representa a melhor solução.
Essa prática pode ser inadequada e perigosa.
O próprio Ministério da Saúde destaca que não se recomenda o uso rotineiro de raticidas para eliminar populações de roedores silvestres e que essas intervenções podem provocar desequilíbrios ambientais.
Também existe o risco de intoxicação de animais não alvo, incluindo predadores naturais que ajudam a regular as populações de pequenos roedores.
Além disso, eliminar alguns indivíduos sem corrigir as condições ambientais não impede que outros ocupem o mesmo espaço posteriormente.
Na prevenção da hantavirose, a prioridade é evitar a aproximação e o contato entre pessoas, roedores silvestres e suas excretas.
Controle profissional deve começar pelo diagnóstico da espécie
Nem toda ocorrência de roedores deve receber o mesmo tratamento.
Um programa tecnicamente correto começa pela identificação da espécie, análise dos sinais encontrados e avaliação do ambiente.
A estratégia utilizada contra uma população de ratazanas em uma área urbana, por exemplo, não deve ser automaticamente reproduzida diante de roedores silvestres em uma propriedade rural.
O profissional precisa considerar:
- Espécie ou grupo de roedor envolvido;
- Características do ambiente;
- Disponibilidade de alimento e abrigo;
- Rotas de entrada;
- Proximidade de áreas naturais;
- Risco ocupacional;
- Existência de caso suspeito ou confirmado de doença;
- Medidas ambientais e estruturais possíveis.
O uso inteligente de métodos físicos e de monitoramento também faz parte dessa abordagem. Confira nosso conteúdo sobre armadilhas para roedores dentro de estratégias integradas.
Hantavirose exige integração entre saúde pública e controle ambiental
A ocorrência de uma doença transmitida por reservatórios silvestres demonstra que o controle não depende exclusivamente de uma empresa de desratização.
O enfrentamento envolve vigilância epidemiológica, orientação aos trabalhadores, manejo ambiental, infraestrutura adequada das propriedades e identificação precoce dos casos humanos.
Empresas especializadas podem auxiliar na avaliação das vulnerabilidades estruturais e no gerenciamento de roedores sinantrópicos, desde que sua atuação seja compatível com a espécie envolvida e com as recomendações das autoridades sanitárias.
Ao contratar um serviço, é importante verificar regularização, responsabilidade técnica e metodologia utilizada. Consulte nosso guia sobre como escolher uma empresa de controle de pragas.
Santa Catarina reforça um alerta que vale para todo o Sul do país
A segunda morte registrada em Santa Catarina em 2026 reforça a necessidade de reconhecer a hantavirose como um risco ocupacional e ambiental importante, especialmente em regiões rurais.
Dados epidemiológicos nacionais mostram que as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram uma parcela expressiva dos registros brasileiros.
A prevenção depende principalmente de evitar que roedores silvestres encontrem alimento e abrigo junto às edificações e de impedir a exposição humana às suas excretas.
Também é fundamental abandonar práticas perigosas de limpeza, como varrer fezes de roedores a seco, e reconhecer rapidamente sintomas após uma possível exposição.
Na hantavirose, o risco muitas vezes não está no contato visual com o animal, mas nas partículas contaminadas deixadas no ambiente. Prevenção estrutural, manejo ambiental e procedimentos corretos de limpeza constituem as principais barreiras contra a doença.





