A presença de pragas em ônibus, terminais e estações-tubo de Curitiba gerou 126 protocolos junto à Urbanização de Curitiba (Urbs) entre julho de 2024 e julho de 2026. Os registros correspondem a uma média aproximada de uma manifestação a cada seis dias e envolvem relatos sobre baratas, formigas e roedores no sistema de transporte coletivo da capital paranaense.
As informações foram divulgadas após um pedido oficial de esclarecimentos encaminhado à Urbs pela Câmara Municipal de Curitiba. Os registros incluem manifestações de passageiros e demandas apresentadas por parlamentares.
A Urbs informou que todos os protocolos foram abertos e respondidos. O órgão também esclareceu que as concessionárias responsáveis pela operação do transporte coletivo devem manter planos contínuos de higienização e controle de pragas nos veículos, terminais e estações-tubo.
Embora os números representem reclamações registradas, e não necessariamente 126 infestações confirmadas, os dados evidenciam a importância de um programa preventivo capaz de identificar focos, corrigir falhas estruturais e reduzir os riscos sanitários em ambientes de grande circulação de pessoas.
Pragas em ônibus: o que revelam os dados da Urbs?
O levantamento apresentado pela Urbs abrange um período de aproximadamente dois anos e considera ocorrências relacionadas à presença de animais indesejados em diferentes estruturas do sistema de transporte.
Os dados foram fornecidos em resposta a um requerimento apresentado pela vereadora Giorgia Prates, da Mandata Preta, à Câmara Municipal de Curitiba.
Segundo a entidade, as concessionárias possuem a obrigação de executar ações contínuas de limpeza, higienização e controle de pragas. A desinsetização é realizada, em regra, a cada seis meses, mas esse intervalo pode ser reduzido conforme as condições de cada ambiente.
Entre os fatores considerados para antecipar uma intervenção estão:
- Temperatura e condições ambientais;
- Índice de infestação identificado;
- Estado de conservação do veículo;
- Condições sanitárias dos terminais e estações;
- Ocorrências identificadas durante as fiscalizações.
Quando uma denúncia é recebida, a fiscalização realiza a verificação da ocorrência. Caso a presença de pragas seja confirmada, o veículo pode ser retirado de circulação e encaminhado para higienização e desinsetização.
Do ponto de vista técnico, a retirada temporária do veículo permite realizar intervenções com maior segurança, evitando a exposição dos passageiros aos procedimentos de controle.
Por que baratas, formigas e roedores aparecem no transporte coletivo?
Ônibus e terminais apresentam características que podem favorecer a presença de determinadas espécies urbanas, especialmente quando existem fontes de alimento, pontos de abrigo e possibilidades de acesso.
A grande circulação de passageiros também contribui para a entrada acidental de organismos e o transporte de resíduos alimentares, sem que isso represente necessariamente falta de limpeza generalizada.
As condições específicas de cada espécie precisam ser consideradas para definir medidas de prevenção e controle.
Baratas: abrigo em frestas e busca por alimentos
As baratas possuem hábitos predominantemente noturnos e comportamento de busca por abrigo em locais escuros e protegidos.
Em veículos, frestas, compartimentos técnicos e áreas de difícil acesso podem oferecer esconderijos. Já os resíduos alimentares deixados pelos passageiros podem funcionar como fonte de alimento.
Espécies como a barata-alemã (Blattella germanica) possuem elevada capacidade reprodutiva e podem se estabelecer em ambientes protegidos quando encontram condições favoráveis.
Por isso, a ausência de insetos visíveis durante o dia não garante que determinado ambiente esteja livre de atividade.
Para aprofundar o assunto, confira nossa análise sobre controle de baratas e a importância das estratégias integradas.
Formigas: comportamento exploratório e acesso a resíduos
As formigas são insetos sociais que vivem em colônias organizadas. As operárias exploram o ambiente em busca de alimentos e utilizam sinais químicos para orientar outros indivíduos até as fontes encontradas.
Resíduos de bebidas açucaradas, restos de alimentos e materiais armazenados podem favorecer sua presença em pontos de embarque, lixeiras e estruturas de apoio.
A eliminação das operárias visíveis não significa necessariamente o controle da colônia. É necessário identificar a espécie, localizar possíveis ninhos e corrigir os fatores ambientais que favorecem a atividade.
Roedores: acesso a abrigos e fontes alimentares
Ratos e camundongos apresentam elevada capacidade de adaptação ao ambiente urbano. Sua presença está frequentemente associada à disponibilidade de alimento, água, abrigo e rotas de deslocamento.
Terminais, áreas de armazenamento, galerias de drenagem, instalações subterrâneas e locais com resíduos mal acondicionados podem oferecer condições favoráveis à atividade desses animais.
Além da contaminação ambiental, os roedores podem danificar materiais e estruturas por meio do comportamento de roedura.
A identificação de sinais como fezes, marcas de roedura e trilhas deve integrar as inspeções preventivas, especialmente em áreas técnicas e locais pouco movimentados.
Quais riscos sanitários as pragas representam para os passageiros?
A presença de organismos sinantrópicos em ambientes coletivos exige atenção porque determinadas espécies podem transportar agentes patogênicos, contaminar superfícies e provocar reações alérgicas.
As baratas podem transportar mecanicamente microrganismos presentes em ambientes contaminados. Seus fragmentos corporais e excretas também contêm substâncias alergênicas associadas a manifestações respiratórias em pessoas suscetíveis.
Os roedores possuem importância sanitária ainda maior em determinados contextos, pois podem atuar como reservatórios de agentes causadores de zoonoses, incluindo a leptospirose.
A transmissão da leptospirose ocorre principalmente pelo contato com água ou solo contaminados pela urina de animais infectados, especialmente roedores.
Entretanto, é importante diferenciar o perigo biológico da comprovação de transmissão. A presença de uma barata ou de um rato em um ônibus não significa, por si só, que tenha ocorrido contaminação ou transmissão de doença a passageiros.
O risco depende da espécie envolvida, das condições ambientais, da possível presença de agentes infecciosos e das vias de exposição.
Por isso, a resposta adequada deve priorizar a investigação do foco e a adoção de medidas sanitárias proporcionais à ocorrência identificada.
Dedetização semestral é suficiente para controlar pragas em ônibus?
O intervalo de seis meses informado pela Urbs representa uma referência para a execução ordinária da desinsetização. Entretanto, do ponto de vista do Manejo Integrado de Pragas, a frequência de aplicação de produtos químicos não deve ser o único indicador da efetividade do programa.
Ambientes com elevada circulação de pessoas, movimentação de veículos e exposição contínua a diferentes condições ambientais exigem monitoramento regular.
Uma intervenção química pode reduzir a população existente naquele momento, mas não impede automaticamente a entrada de novos indivíduos nem elimina todas as condições favoráveis à reinfestação.
Por isso, o planejamento deve considerar indicadores como:
- Quantidade e localização das ocorrências;
- Espécies identificadas durante as inspeções;
- Presença de indivíduos adultos, jovens e outros sinais de atividade;
- Condições estruturais dos veículos;
- Efetividade das ações corretivas anteriores;
- Recorrência de reclamações em determinadas linhas ou equipamentos.
Esses indicadores permitem definir quando uma intervenção adicional é necessária e avaliar se o programa está produzindo resultados consistentes.
Manejo Integrado de Pragas: a estratégia para proteger o transporte público
O Manejo Integrado de Pragas (MIP) estabelece uma abordagem preventiva baseada na compreensão da biologia dos organismos, nas condições ambientais e na aplicação de medidas corretivas direcionadas.
Em sistemas de transporte coletivo, o MIP deve abranger não apenas os veículos, mas também os espaços que integram sua operação, como garagens, oficinas, terminais, estações e áreas de armazenamento.
O objetivo é reduzir as fontes de atração, impedir o estabelecimento de populações e identificar precocemente qualquer sinal de infestação.
Essa filosofia está fundamentada nos princípios apresentados em nosso artigo sobre Manejo Integrado de Pragas e controle ambiental, que destaca a importância de atuar sobre água, alimento, abrigo e acesso.
1. Inspeção e monitoramento
As inspeções devem identificar pontos críticos e registrar evidências de atividade das espécies-alvo.
Em ônibus, atenção especial deve ser dedicada às áreas de difícil acesso, compartimentos técnicos, frestas, bases de assentos e pontos que possam acumular resíduos.
Armadilhas de monitoramento podem ser utilizadas quando tecnicamente indicadas, desde que instaladas em locais protegidos e compatíveis com a segurança operacional dos veículos.
2. Higienização e gestão de resíduos
A limpeza deve remover resíduos orgânicos, restos alimentares e outras fontes de atração.
Nos terminais e estações, o acondicionamento adequado do lixo e a manutenção das lixeiras são medidas fundamentais.
É importante destacar que limpeza e desinsetização são procedimentos distintos e complementares. A higienização reduz as condições favoráveis, enquanto o controle técnico atua sobre os organismos identificados.
3. Vedação e exclusão física
Frestas, passagens de tubulações, aberturas estruturais e pontos de acesso devem ser avaliados para identificar oportunidades de entrada e abrigo.
Em terminais e garagens, medidas como vedação de passagens, manutenção de portas, proteção de acessos e correção de falhas estruturais contribuem para reduzir a circulação das pragas.
Nos veículos, qualquer intervenção estrutural precisa respeitar os requisitos de ventilação, acessibilidade e segurança definidos pelo fabricante e pelas normas aplicáveis.
4. Controle químico tecnicamente direcionado
Quando necessário, o controle químico deve ser executado com produtos regularizados, selecionados de acordo com a espécie-alvo e as características do ambiente.
A aplicação deve considerar o tempo necessário para liberação segura do veículo, as orientações de reentrada e as condições de exposição dos passageiros e trabalhadores.
O procedimento não deve comprometer sistemas elétricos, equipamentos eletrônicos, superfícies de contato ou componentes essenciais à operação do transporte.
Aplicações indiscriminadas de inseticidas no interior dos veículos podem gerar exposição química desnecessária sem resolver a origem da infestação.
Por que soluções caseiras não devem ser utilizadas nos ônibus?
O uso improvisado de inseticidas domésticos, aerossóis e misturas químicas em veículos de transporte coletivo representa um risco adicional para passageiros e trabalhadores.
Ambientes fechados ou com ventilação limitada podem favorecer a exposição a vapores e resíduos químicos, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com sensibilidade respiratória.
Além disso, determinados produtos podem espalhar insetos para locais mais protegidos, dificultando a localização dos focos e o controle posterior.
As intervenções devem ser realizadas por profissionais capacitados, utilizando métodos e produtos apropriados para as condições específicas do ambiente.
Controle de pragas também exige documentação e conformidade sanitária
Um programa profissional de controle de pragas não se resume à execução periódica de serviços. Ele precisa apresentar rastreabilidade, critérios técnicos e documentação que permita verificar as atividades realizadas.
A Resolução RDC nº 622/2022 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária estabelece diretrizes e condições gerais para o funcionamento de empresas especializadas no controle de vetores e pragas urbanas.
A norma contempla requisitos relacionados às boas práticas operacionais, à segurança dos serviços e à redução de impactos à saúde humana e ao meio ambiente.
Para concessionárias e gestores de transporte coletivo, a contratação de uma empresa especializada deve contemplar:
- Licenciamento sanitário e demais autorizações aplicáveis;
- Responsável técnico legalmente habilitado;
- Diagnóstico das espécies e dos locais de ocorrência;
- Plano de ação com medidas preventivas e corretivas;
- Registro dos produtos e procedimentos utilizados;
- Comprovantes de execução dos serviços;
- Monitoramento dos resultados e acompanhamento das não conformidades.
Esses elementos permitem acompanhar a execução contratual, identificar problemas recorrentes e estabelecer ações corretivas com base em evidências.
Para entender os principais critérios de contratação, consulte nosso guia sobre como escolher uma empresa de controle de pragas.
O que o passageiro deve fazer ao encontrar uma praga no ônibus?
A identificação de baratas, roedores ou outros organismos deve ser comunicada aos responsáveis pela operação do sistema para permitir a verificação e a adoção de medidas corretivas.
O passageiro não deve tentar aplicar inseticidas, capturar roedores ou manipular animais potencialmente perigosos.
Para facilitar a apuração, recomenda-se registrar:
- Número de identificação do ônibus ou prefixo do veículo;
- Linha e sentido da viagem;
- Data e horário aproximado da ocorrência;
- Local onde o animal foi observado;
- Fotografia ou vídeo, quando possível e sem comprometer a segurança.
Em Curitiba, as manifestações podem ser encaminhadas pela Central 156, canal oficial de atendimento da Prefeitura.
A Urbs também disponibiliza informações sobre seus canais de atendimento e Ouvidoria, permitindo que os cidadãos acompanhem situações relacionadas ao transporte coletivo.
Prevenção contínua é essencial para reduzir ocorrências
Os 126 protocolos registrados em Curitiba demonstram a importância de manter procedimentos permanentes de vigilância ambiental no transporte público.
Embora a desinsetização periódica seja uma ferramenta importante, a redução sustentável das ocorrências depende de ações integradas envolvendo limpeza, manutenção estrutural, identificação das espécies e monitoramento contínuo.
A participação dos passageiros, por meio da comunicação das ocorrências, também contribui para identificar pontos críticos e direcionar a fiscalização.
Para os gestores e concessionárias, o desafio é manter um programa de controle capaz de antecipar problemas, documentar as intervenções e avaliar os resultados de maneira sistemática.
O Manejo Integrado de Pragas oferece uma abordagem preventiva que contribui para proteger a saúde dos usuários, preservar os equipamentos públicos e reduzir a recorrência de infestações no sistema de transporte coletivo.





